Uma das frases mais ouvidas pelas famílias quando uma criança demora a falar é: “Espere, cada criança tem o seu tempo”. Realmente existe variação entre as crianças, mas o desenvolvimento da comunicação possui marcos que ajudam a diferenciar uma variação esperada de um possível atraso.
A fala não começa somente quando a criança pronuncia a primeira palavra. Antes disso, ela já deve demonstrar interesse pelas pessoas, reagir aos sons e à voz, olhar para quem fala, imitar expressões, produzir diferentes sons, apontar, fazer gestos e tentar comunicar o que deseja. Por isso, avaliar o desenvolvimento da linguagem não significa apenas contar palavras.
O que costuma ser esperado em cada fase?
Por volta de um ano, a criança costuma usar gestos, como dar tchau, compreender algumas palavras familiares e chamar os responsáveis por nomes como “mamãe” ou “papai”. Aos 15 meses, geralmente começa a tentar falar uma ou duas palavras além desses nomes. Aos 18 meses, espera-se que tente usar pelo menos algumas palavras e consiga compreender comandos simples.
Por volta dos dois anos, a criança já costuma juntar duas palavras com significado, apontar partes do corpo quando solicitada e utilizar diferentes gestos para se comunicar. Aos dois anos e meio, o vocabulário normalmente está aumentando rapidamente, aproximando-se de cinquenta palavras, com pequenas combinações que incluem ações, como “papai chegou” ou “neném caiu”.
Aos três anos, espera-se que a criança participe de pequenas conversas, faça perguntas, diga o próprio nome e seja compreendida pelas outras pessoas na maior parte do tempo.
Esses marcos representam habilidades observadas na maioria das crianças daquela idade. Eles não devem ser usados isoladamente para estabelecer um diagnóstico, mas são referências importantes para decidir quando procurar uma avaliação.
Quando a família deve buscar ajuda?
É importante procurar orientação quando a criança:
não utiliza gestos para pedir ou compartilhar interesses;
parece não compreender comandos ou palavras adequados para sua idade;
fala poucas palavras e não apresenta evolução;
chega aos dois anos sem começar a combinar palavras;
comunica-se principalmente chorando, puxando o adulto ou apontando, sem desenvolver outras formas de expressão;
apresenta dificuldade para interagir ou sustentar trocas comunicativas;
perde palavras ou habilidades que já utilizava;
parece não escutar bem ou não responde quando é chamada.
A perda de qualquer habilidade já adquirida merece investigação. Também não é necessário esperar que a criança complete três anos para avaliar. O Ministério da Saúde destaca que a identificação e a intervenção precoces aumentam as possibilidades de desenvolvimento e reduzem os impactos de possíveis atrasos.
Falar pouco é sempre falta de estímulo?
Não. A quantidade e a qualidade das interações familiares influenciam o desenvolvimento, mas o atraso da fala pode estar relacionado a diferentes fatores, como alterações auditivas, dificuldades na compreensão da linguagem, transtornos do desenvolvimento, alterações motoras da fala, questões neurológicas ou limitações nas habilidades comunicativas.
O excesso de telas também pode reduzir o tempo de interação real da criança com outras pessoas, especialmente quando substitui conversas, brincadeiras e experiências compartilhadas. Entretanto, não é adequado responsabilizar a família ou concluir que a criança não fala porque recebe “pouco estímulo” sem realizar uma avaliação.
O que é observado na avaliação fonoaudiológica?
A avaliação não considera apenas a quantidade de palavras. O fonoaudiólogo observa a compreensão, a intenção comunicativa, os gestos, a imitação, a atenção compartilhada, a brincadeira, a interação, os sons produzidos, a organização da fala e as estruturas e funções envolvidas na comunicação.
Também pode ser necessária uma avaliação auditiva, mesmo quando a família acredita que a criança escuta normalmente. Ouvir alguns sons ou responder a determinados estímulos não é suficiente para confirmar que todos os sons da fala estão sendo percebidos adequadamente.
A avaliação precoce não significa antecipar um diagnóstico. Significa compreender como a criança está se desenvolvendo e decidir se ela precisa de orientação, acompanhamento ou intervenção. Quando não há alteração, a família recebe segurança. Quando existe uma dificuldade, o cuidado pode começar no momento mais favorável.
Não é preciso esperar a criança “destravar”. Quando os pais percebem que algo não está acompanhando o esperado, essa percepção deve ser considerada. Aguardo vocês para uma avaliação.
Dra. Alice Valente
Fonoaudióloga
CRFa 1-16130



