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A hora da refeição virou uma batalha? Descubra quando pedir ajuda.

A hora de comer deveria fazer parte da rotina da família de maneira relativamente tranquila. Isso não significa que a criança precise aceitar tudo o que é colocado no prato, comer sempre a mesma quantidade ou demonstrar interesse por todos os alimentos. Durante o desenvolvimento infantil, é comum surgirem preferências, recusas e períodos em que a criança parece mais resistente a experimentar algo novo.

Mas existe uma diferença importante entre uma criança que simplesmente não gostou de determinado alimento e uma criança que apresenta uma dificuldade real para se alimentar.

Quando todas as refeições começam a ser acompanhadas por choro, irritação, ânsia, engasgos, fuga da mesa, medo de experimentar, necessidade constante de distração ou uma seleção cada vez menor de alimentos, é preciso olhar para essa situação com mais cuidado.

Muitas famílias chegam à avaliação dizendo: “Ele é muito seletivo”, “Ela só come se estiver vendo televisão”, “Ele não mastiga direito”, “Ela guarda a comida na boca”, “Ele aceita a comida de um jeito, mas se eu mudar a marca não come”, “Ela tem ânsia quando vê determinados alimentos” ou simplesmente: “Toda refeição virou uma briga”.

E é justamente nesse momento que precisamos parar de pensar apenas em quanto aquela criança está comendo e começar a entender como ela está se alimentando e por que aquele momento está sendo tão difícil.

A alimentação infantil é uma função complexa. Para comer, a criança precisa reconhecer o alimento, tolerar sua presença, lidar com cheiro, temperatura, textura e sabor, aceitar colocá-lo na boca e, depois, organizar todo o processo motor necessário para mastigar e engolir. Lábios, língua, mandíbula e bochechas participam da preparação e do transporte do alimento dentro da boca, enquanto a deglutição precisa ocorrer de forma coordenada e segura. Por isso, dificuldades alimentares podem envolver componentes sensoriais, motores, comportamentais, médicos, nutricionais e funcionais, muitas vezes associados entre si.

“Mas toda criança passa por uma fase de não querer comer, não passa?”

Em algum momento, muitas crianças realmente ficam mais criteriosas em relação à alimentação. Elas podem começar a rejeitar alimentos que antes aceitavam, demonstrar preferência por determinados sabores ou recusar uma comida nova simplesmente porque ainda não a conhecem.

Isso, isoladamente, não significa que exista um transtorno alimentar ou uma alteração de alimentação.

Uma criança pode dizer que não gosta de brócolis, mas continuar comendo arroz, feijão, carne, frutas, outros legumes e experimentar diferentes preparações. Pode não querer determinado prato em um dia e aceitá-lo em outro. Pode passar algumas semanas com mais resistência e depois voltar a ampliar naturalmente a alimentação.

A Academia Americana de Pediatria orienta que alguma seletividade pode fazer parte do desenvolvimento e recomenda que as famílias mantenham oportunidades de contato com alimentos variados sem transformar a refeição em uma disputa constante.

A preocupação aumenta quando o repertório alimentar fica progressivamente menor ou quando a criança apresenta uma recusa muito intensa e persistente.

É diferente, por exemplo, uma criança dizer “não quero cenoura” de uma criança que não tolera nenhuma comida de determinada cor.

É diferente não gostar de carne de uma criança não conseguir mastigar alimentos mais fibrosos.

É diferente preferir alimentos crocantes de uma criança aceitar praticamente apenas alimentos secos e crocantes porque não consegue lidar com outras texturas.

É diferente não estar com fome em um determinado dia de uma criança que diariamente demora uma hora para concluir uma refeição.

Por isso, não devemos analisar apenas o alimento recusado. Precisamos observar o comportamento alimentar como um todo.

Quando o “não quero comer” pode estar escondendo uma dificuldade?

A criança nem sempre consegue explicar o motivo pelo qual está recusando determinado alimento.

Para um adulto, pode parecer simplesmente uma birra.

Mas aquela criança pode estar dizendo “não” porque mastigar é difícil. Porque não consegue organizar bem o alimento dentro da boca. Porque determinada textura provoca uma sensação extremamente desagradável. Porque sente medo depois de já ter engasgado. Porque alguns alimentos exigem uma habilidade motora que ela ainda não desenvolveu adequadamente.

Também pode acontecer de a criança apresentar uma dificuldade de deglutição ou outro desconforto relacionado à alimentação.

Sinais como tosse ou engasgos frequentes durante as refeições, dificuldade de mastigação, alimento permanecendo na boca, refeições excessivamente demoradas, dificuldade para avançar nas consistências e recusa alimentar estão entre os aspectos que podem ser observados durante uma investigação de alimentação e deglutição infantil.

É por isso que frases como “quando tiver fome, vai comer” nem sempre fazem sentido.

Uma criança com uma dificuldade alimentar real pode sentir fome e, ainda assim, não conseguir comer adequadamente.

Alguns sinais que merecem atenção

Um dos primeiros pontos que observamos é a variedade.

A criança está ampliando seu repertório conforme cresce ou está comendo cada vez menos alimentos?

Existe flexibilidade ou tudo precisa ser exatamente igual?

Algumas crianças aceitam determinado alimento apenas de uma marca específica. Se muda a embalagem, o formato ou a textura, recusam. Outras comem batata somente se for de uma determinada preparação, não aceitando o mesmo alimento cozido, amassado ou assado.

Também chama atenção quando grupos inteiros de alimentos ficam de fora da alimentação.

Outro sinal é a dificuldade com texturas.

A criança pode aceitar apenas alimentos pastosos, mesmo quando já seria esperado que tivesse avançado para outras consistências. Em outros casos, prefere exclusivamente alimentos secos e crocantes e rejeita preparações úmidas, molhos ou alimentos misturados.

Também devemos observar situações em que a criança:

apresenta ânsia frequente diante dos alimentos;

tosse ou engasga durante as refeições;

parece ter dificuldade para mastigar;

mastiga durante muito tempo sem conseguir concluir;

acumula alimento dentro da boca;

cospe repetidamente;

evita determinadas consistências;

recusa experimentar qualquer alimento novo;

demonstra grande ansiedade quando um alimento diferente é colocado no prato;

chora ou tenta fugir quando percebe que está chegando o horário da refeição;

depende de televisão, celular ou outras distrações para comer;

apresenta refeições extremamente demoradas;

ou tem um repertório alimentar tão restrito que a rotina familiar começa a ser organizada em torno do que ela aceita.

A ASHA, associação profissional e científica norte-americana da área de Fonoaudiologia e Audiologia, descreve entre os possíveis sinais de alterações de alimentação e deglutição comportamentos como recusa alimentar, dificuldades para mastigar, tosse ou engasgos durante as refeições, alterações respiratórias relacionadas à alimentação e dificuldades com determinadas texturas.

Um sinal isolado não permite fechar um diagnóstico. O importante é observar a frequência, a intensidade e o impacto daquela dificuldade na alimentação e na rotina da criança.

Quando a criança só come assistindo televisão

Esse é um cenário extremamente comum.

A família percebe que, sem o desenho ou o celular, a criança não come. Então coloca uma tela para conseguir oferecer algumas colheradas. No começo, parece funcionar.

A criança fica distraída e come.

Com o tempo, porém, a refeição pode começar a depender completamente daquela distração.

Isso merece atenção principalmente quando a criança praticamente não participa do próprio momento alimentar. Ela não observa o alimento, não demonstra interesse, não percebe adequadamente o que está recebendo e muitas vezes abre a boca de maneira automática enquanto está concentrada em outra atividade.

Isso não significa que toda família que já usou uma tela durante uma refeição esteja causando uma dificuldade alimentar. O problema é quando a distração passa a ser indispensável para que a alimentação aconteça.

A Academia Americana de Pediatria recomenda refeições familiares sem distrações de mídia, favorecendo a interação e a participação da criança naquele momento.

Quando uma criança só consegue comer se estiver completamente distraída, vale investigar o motivo.

Talvez ela esteja simplesmente muito acostumada àquela dinâmica. Mas também pode existir uma dificuldade alimentar que está sendo mascarada porque, distraída, a criança demonstra menos resistência.

A pergunta não deve ser apenas “como fazer meu filho comer sem celular?”.

Antes disso, precisamos entender:

por que ele precisa do celular para conseguir comer?

“Ele só não mastiga porque é preguiçoso.”

Essa também é uma frase que ouvimos com frequência.

Mas mastigar não é uma habilidade automática e igual para todas as crianças.

A mastigação envolve movimentos coordenados da mandíbula, participação da língua para movimentar e posicionar o alimento, ação das bochechas e organização adequada dentro da cavidade oral. A alimentação e a deglutição infantil dependem da integração de diferentes estruturas e sistemas, e dificuldades motoras orais podem fazer parte de alguns quadros de alimentação pediátrica.

Quando uma criança evita carnes, alimentos fibrosos, pedaços maiores ou preparações que exigem maior trabalho mastigatório, precisamos observar o motivo.

Será apenas preferência?

Ou ela está escolhendo aquilo que é mais fácil para conseguir comer?

Algumas crianças desenvolvem verdadeiras estratégias de adaptação.

Preferem alimentos que dissolvem rapidamente na boca.

Escolhem alimentos muito macios.

Engolem pedaços praticamente sem mastigar.

Bebem líquido para ajudar a comida a descer.

Guardam o alimento nas bochechas.

Ou simplesmente começam a excluir tudo o que exige mais esforço.

Nesses casos, insistir para que a criança “mastigue direito” sem entender a origem da dificuldade pode aumentar ainda mais o desconforto.

E quando existe ânsia?

A ânsia também precisa ser analisada dentro do contexto.

Ela pode aparecer quando a criança entra em contato com determinadas texturas, quando coloca um alimento novo na boca ou durante a tentativa de mastigação e deglutição.

Em algumas crianças, determinadas características sensoriais do alimento provocam uma reação intensa. Em outras, o problema pode estar relacionado ao controle oral do alimento ou a outras condições que precisam ser investigadas.

Por isso, provocar repetidamente uma situação de ânsia como forma de “fazer a criança se acostumar” não é uma boa estratégia.

Precisamos compreender o que está desencadeando aquela resposta.

A criança está reagindo ao cheiro?

À textura?

Ao tamanho do pedaço?

À presença do alimento na língua?

À dificuldade de controlar aquele alimento dentro da boca?

Existe um histórico de engasgo ou experiência negativa?

Essas informações mudam completamente a condução do caso.

Se a criança engasga, é preciso observar

Engasgos frequentes não devem ser normalizados.

Uma coisa é um episódio pontual. Outra é perceber que a criança tosse, engasga ou apresenta dificuldades repetidas durante as refeições.

Problemas de alimentação e deglutição podem apresentar sinais como tosse e engasgos, e sua avaliação precisa considerar a segurança e a eficiência com que a criança se alimenta.

Quando esses episódios são recorrentes, principalmente se acompanhados por alterações respiratórias, dificuldade importante para ganhar peso, infecções respiratórias recorrentes ou outros sinais clínicos, é necessário procurar avaliação profissional.

Nesses casos, não devemos simplesmente modificar a consistência dos alimentos por conta própria ou criar estratégias sem compreender o que está acontecendo.

O impacto vai além do prato

Uma dificuldade alimentar não afeta apenas a criança.

Afeta a família inteira.

Os pais começam a se preocupar com cada refeição.

Fazem um prato e depois outro.

Compram apenas determinadas marcas.

Levam comida de casa para todos os lugares porque sabem que a criança provavelmente não aceitará nada diferente.

Deixam de frequentar alguns ambientes.

Ficam ansiosos antes mesmo do horário da refeição.

Tentam negociar.

Prometem sobremesa.

Insistem.

Pedem “só mais uma colher”.

A criança percebe a tensão.

Os adultos também ficam frustrados.

E o que deveria ser um momento cotidiano começa a carregar uma enorme carga emocional.

Muitas vezes, ninguém está fazendo nada “errado”. A família está apenas tentando, da maneira que consegue, garantir que aquela criança coma.

Por isso, o objetivo de uma avaliação não deve ser culpabilizar os pais.

É compreender a dificuldade.

Quando entendemos o motivo pelo qual a criança não consegue avançar na alimentação, conseguimos pensar em estratégias mais adequadas para aquele caso.

O papel da Fonoaudiologia nas dificuldades alimentares

Quando existe suspeita de uma alteração relacionada às funções orais, à mastigação ou à deglutição, a avaliação fonoaudiológica pode fazer parte da investigação.

Durante esse processo, podemos observar aspectos como mobilidade e funcionamento das estruturas orais, organização do alimento dentro da boca, mastigação, controle oral e deglutição, além da maneira como a criança responde às diferentes consistências durante a alimentação. A avaliação fonoaudiológica de alimentação e deglutição pediátrica também considera aspectos funcionais e a segurança alimentar de acordo com o quadro apresentado.

Não olhamos apenas para a língua.

Não olhamos apenas para o alimento.

Não olhamos apenas para o comportamento.

Precisamos compreender como aquela criança funciona durante todo o processo alimentar.

Como recebe o alimento?

Como fecha os lábios?

Como movimenta a língua?

Como mastiga?

Como organiza o alimento?

Como engole?

Existe esforço?

Existe compensação?

Existe recusa?

Existe desconforto?

Existe alguma consistência claramente mais difícil?

É a partir dessa observação que conseguimos compreender melhor quais aspectos precisam ser trabalhados e se existe necessidade de participação de outros profissionais.

Nem toda dificuldade alimentar é tratada por um único profissional

Esse ponto é muito importante.

A alimentação infantil envolve diferentes áreas e, dependendo do que está causando a dificuldade, pode ser necessário um acompanhamento multiprofissional.

Existem situações em que o foco principal está nas funções orais e na deglutição.

Em outras, existem questões nutricionais importantes.

Pode haver fatores gastrointestinais, respiratórios ou outras condições clínicas.

Também podem existir componentes sensoriais e comportamentais que precisam ser considerados.

Por isso, não existe um tratamento único que funcione para todas as crianças.

A criança que não consegue mastigar adequadamente não apresenta a mesma necessidade daquela que possui uma boa habilidade motora oral, mas uma recusa intensa diante de determinadas características sensoriais.

Da mesma forma, uma criança que tosse e engasga durante a alimentação precisa de uma investigação diferente daquela cujo principal problema é um repertório alimentar reduzido.

O tratamento precisa começar pela compreensão da causa.

O que os pais podem observar em casa?

Antes mesmo da avaliação, algumas observações ajudam muito.

Observe quantos alimentos diferentes seu filho aceita.

Não apenas quantas preparações.

Por exemplo: uma criança pode comer batata frita, batata chips e outro salgadinho à base de batata. Apesar de serem três produtos diferentes, a variedade alimentar real continua pequena.

Observe também se o repertório está aumentando ou diminuindo.

Pense em alimentos que seu filho comia há seis meses e deixou de comer.

Veja se ele aceita alimentos novos ou se a lista está ficando cada vez mais restrita.

Observe as texturas.

Ele aceita comida mais firme?

Mastiga carnes?

Come frutas em pedaços?

Tolera alimentos misturados?

Precisa que tudo esteja amassado ou triturado?

Também preste atenção ao tempo da refeição.

Como ele se comporta?

Precisa ser perseguido pela casa?

Só come assistindo a alguma coisa?

Fica angustiado quando vê comida?

Tem ânsia?

Tosse?

Engasga?

Guarda alimento na boca?

Cospe?

Pede água o tempo todo para ajudar a engolir?

Essas informações ajudam muito mais do que simplesmente dizer que a criança “come mal”.

Não espere a situação ficar extrema para procurar orientação

Muitas famílias chegam ao atendimento depois de meses ou anos tentando resolver sozinhas.

Nesse período, algumas adaptações acabam se tornando parte da rotina.

A família deixa de oferecer determinados alimentos.

A criança passa a comer sempre as mesmas coisas.

A tela entra em todas as refeições.

Os pratos ficam cada vez mais restritos.

E todo mundo vai se adaptando.

Até que chega um momento em que a alimentação se torna realmente muito limitada.

Não é necessário esperar chegar a esse ponto.

Se existe uma preocupação persistente com a forma como seu filho come, se você percebe que o desenvolvimento alimentar não está avançando ou se as refeições se tornaram fonte diária de tensão, vale conversar com um profissional.

O Ministério da Saúde também orienta que dúvidas relacionadas ao crescimento e ao desenvolvimento da criança sejam compartilhadas com os profissionais de saúde responsáveis pelo acompanhamento infantil.

Buscar uma avaliação não significa que a criança necessariamente tenha uma alteração.

Significa investigar.

Em alguns casos, a família recebe orientações e consegue reorganizar a rotina.

Em outros, identificamos uma habilidade que precisa ser desenvolvida.

E existem situações em que é necessário construir um acompanhamento mais amplo.

O mais importante é não reduzir toda dificuldade alimentar à ideia de que a criança é “manhosa”, “preguiçosa” ou “não come porque não quer”.

Às vezes, o comportamento que estamos vendo é apenas a forma que aquela criança encontrou para mostrar que alguma coisa naquele processo está difícil.

Quando conseguimos compreender o que existe por trás da recusa, deixamos de lutar contra a criança e começamos, de fato, a ajudá-la.

Porque o objetivo não deve ser simplesmente fazer uma criança engolir mais uma colher.

O objetivo é ajudá-la a desenvolver uma relação funcional, segura e progressivamente mais confortável com a alimentação.

E quando toda refeição está virando uma batalha, talvez seja exatamente essa a hora de parar de insistir e começar a investigar.

Dra. Alice Valente
Fonoaudióloga
CRFa 1-16130

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