“Meu filho fala, mas ninguém entende o que ele diz.” Essa é uma queixa muito comum entre famílias de crianças que já passaram da fase inicial do desenvolvimento da fala, mas ainda apresentam uma comunicação pouco clara.
Em alguns casos, a criança fala bastante. Ela tenta contar histórias, responder perguntas, pedir coisas e participar das conversas. O problema não está exatamente em falar pouco, mas em como essa fala chega para os outros. As palavras podem sair enroladas, com muitos sons trocados, partes omitidas, frases difíceis de compreender ou uma pronúncia tão imprecisa que só a família consegue entender.
Nos primeiros anos de vida, é esperado que a fala ainda esteja em construção. A criança está aprendendo a organizar os sons, ampliar vocabulário, formar frases e coordenar os movimentos necessários para falar. Mas, com o passar do tempo, a fala precisa se tornar cada vez mais clara.
Quando a criança tem mais de 5 anos e continua falando de uma forma que prejudica a compreensão, isso merece atenção.
Criança de 5 anos falando enrolado é normal?
Depende do grau da dificuldade.
Algumas trocas podem acontecer durante o desenvolvimento, principalmente em sons mais complexos ou palavras maiores. Porém, aos 5 anos, a fala da criança geralmente já deve ser compreendida pela maior parte das pessoas, não apenas pelos pais ou cuidadores.
O NIDCD, instituto norte-americano de referência em comunicação humana, orienta que os marcos de fala e linguagem ajudam a observar se a criança está acompanhando o desenvolvimento esperado ou se precisa de avaliação especializada.
Quando a criança com mais de 5 anos ainda fala de um jeito muito difícil de entender, precisa repetir várias vezes, troca muitos sons ou depende dos pais para “traduzirem” o que ela quer dizer, não é indicado tratar isso apenas como uma fase.
Por que a família entende, mas os outros não?
A família costuma se adaptar ao jeito da criança falar. Os pais entendem pelo contexto, pelos gestos, pela rotina, pela entonação e até pelas palavras que a criança costuma usar.
Por exemplo, uma palavra muito distorcida pode ser compreendida dentro de casa porque todos já sabem o que ela quer dizer. Mas, fora desse ambiente, a criança precisa ser compreendida por pessoas que não conhecem seu padrão de fala.
É por isso que muitas dificuldades ficam mais evidentes na escola. Professores e colegas podem não entender pedidos simples, histórias, respostas ou tentativas de interação. Isso pode gerar frustração, vergonha, irritação ou até fazer a criança falar menos.
O que pode deixar a fala da criança difícil de entender?
A fala pouco clara pode ter várias causas. Por isso, não basta dizer que a criança “troca letras” ou “fala enrolado”. É preciso entender como essa fala está acontecendo.
Algumas crianças apresentam dificuldade articulatória, quando há dificuldade para posicionar e movimentar língua, lábios, mandíbula e outras estruturas para produzir determinados sons. Outras apresentam alterações fonológicas, quando organizam os sons da fala de uma forma diferente do esperado para a idade.
A ASHA descreve os transtornos dos sons da fala como dificuldades que podem envolver articulação e fonologia, afetando a produção dos sons e a inteligibilidade da fala, ou seja, o quanto a fala é compreendida pelos outros.
Além disso, a fala pode sofrer influência de outros fatores, como respiração pela boca, postura inadequada da língua, alteração de freio lingual, histórico de otites, dificuldades auditivas, alterações na motricidade orofacial, alterações de linguagem ou dificuldades no planejamento dos movimentos da fala.
Por isso, duas crianças podem falar “errado”, mas por motivos completamente diferentes.
Quais sinais merecem atenção?
Um dos sinais mais importantes é quando pessoas fora da família não conseguem entender a criança. Isso mostra que a fala já está interferindo na comunicação social.
Também merece atenção quando a criança troca muitos sons, omite partes das palavras, fala muito rápido e embolado, distorce sons, não consegue produzir fonemas esperados para a idade, parece ter dificuldade para movimentar a língua, fala com a boca muito aberta, respira pela boca ou precisa repetir a mesma frase várias vezes.
Outro ponto importante é quando a criança começa a evitar falar. Algumas crianças percebem que não são compreendidas e passam a responder menos, usar gestos, pedir que os pais falem por elas ou demonstrar irritação quando alguém pergunta “o quê?” muitas vezes.
Fala difícil de entender pode atrapalhar a aprendizagem?
Pode.
A fala e a aprendizagem não são a mesma coisa, mas elas se relacionam. Uma criança que apresenta muitas trocas de sons pode ter dificuldade para perceber diferenças sonoras importantes. Isso pode impactar a forma como ela relaciona sons e letras durante a alfabetização.
Nem toda criança com alteração na fala terá dificuldade escolar. Mas quando a fala permanece muito pouco clara depois dos 5 anos, é importante investigar para evitar que a dificuldade se prolongue e interfira também na leitura, escrita, participação em sala e confiança para se comunicar.
A ASHA também aponta que alterações na inteligibilidade podem afetar a comunicação geral da criança e precisam ser consideradas na escolha da intervenção.
Fala enrolada é preguiça?
Não.
Criança não fala errado porque quer. Quando a fala sai muito enrolada, trocada ou difícil de entender, existe alguma razão por trás. Pode ser uma dificuldade na produção dos sons, na organização fonológica, na coordenação dos movimentos, na percepção auditiva, na respiração, na postura da língua ou em outras habilidades envolvidas na comunicação.
Chamar de preguiça pode atrasar a avaliação e fazer a criança se sentir culpada por algo que ela ainda não consegue controlar sozinha.
A fala é uma habilidade complexa. Para falar com clareza, a criança precisa ouvir, perceber os sons, organizar a linguagem, planejar movimentos, coordenar respiração, voz, língua, lábios, mandíbula e ritmo. Quando alguma dessas etapas não funciona bem, a comunicação pode ficar prejudicada.
O que a avaliação fonoaudiológica observa?
A avaliação fonoaudiológica não olha apenas “qual letra a criança troca”. Ela observa a fala como um todo.
Durante a avaliação, o fonoaudiólogo analisa a clareza da fala, os sons produzidos corretamente, os sons trocados, omitidos ou distorcidos, o padrão dessas trocas, a linguagem, a compreensão, o vocabulário, a intenção comunicativa e o impacto da dificuldade no dia a dia.
Também é importante observar as estruturas orais e suas funções. Língua, lábios, bochechas, mandíbula, respiração, mastigação e deglutição podem influenciar diretamente na fala. Em alguns casos, é necessário investigar audição, respiração oral, freio lingual, alterações miofuncionais ou outros fatores associados.
Quando procurar ajuda?
Quando a criança tem mais de 5 anos e ainda fala de forma muito difícil de entender, o ideal é não esperar.
A avaliação não significa que toda criança terá o mesmo tipo de tratamento. Ela serve para entender a causa da dificuldade e definir o melhor caminho para cada caso.
Quanto antes a dificuldade é compreendida, mais direcionado pode ser o acompanhamento. Isso ajuda a criança a se comunicar com mais clareza, participar melhor das conversas, ser compreendida na escola e se sentir mais segura ao falar.
Conclusão
Se uma criança com mais de 5 anos fala, mas ninguém entende o que ela diz, esse sinal merece atenção. A fala difícil de compreender pode envolver trocas de sons, alterações articulatórias, dificuldades fonológicas, questões motoras orais, respiração oral, audição ou outros aspectos do desenvolvimento da comunicação.
Observar a fala não é exigir perfeição. É cuidar para que a criança consiga ser compreendida, expressar suas ideias e participar do mundo com mais segurança.
Fala clara também é desenvolvimento, vínculo, autonomia e qualidade de vida.
Dra. Alice Valente
Fonoaudióloga
CRFa 1-16130



