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Você ronca e acorda cansado? O problema pode ser maior do que parece!

Dormir por muitas horas não significa, necessariamente, ter um sono de qualidade. Algumas pessoas se deitam à noite, aparentemente dormem durante sete ou oito horas e, ainda assim, acordam com a sensação de que não descansaram. Levantam cansadas, passam o dia sonolentas, apresentam dificuldade para se concentrar e precisam fazer um esforço enorme para manter a disposição.

Quando isso acontece junto com ronco frequente, o corpo pode estar dando um sinal que merece investigação.

O ronco acontece pela vibração dos tecidos das vias aéreas superiores durante a passagem do ar. Em algumas pessoas, ele ocorre isoladamente. Em outras, pode estar relacionado a um quadro de distúrbio respiratório do sono, incluindo a apneia obstrutiva do sono. Por esse motivo, não é correto considerar todo ronco apenas um barulho incômodo ou uma característica normal do sono.

“Eu ronco, mas sempre ronquei.”

Essa é uma das principais razões pelas quais muitas pessoas demoram a procurar ajuda. O ronco vai sendo incorporado à rotina da família. Quem dorme ao lado reclama, a pessoa muda de posição, alguém brinca sobre o volume do ronco e a situação continua durante anos.

O problema é que aquilo que se tornou habitual não necessariamente é fisiológico.

Principalmente quando outros sinais começam a aparecer.

A pessoa acorda com a boca seca. Percebe que dorme de boca aberta. Acorda várias vezes durante a noite sem saber exatamente o motivo. Tem um sono inquieto, levanta para ir ao banheiro repetidamente ou desperta com dor de cabeça. Durante o dia, sente cansaço, irritabilidade, dificuldade de memória e concentração ou vontade de dormir em momentos inadequados.

Ronco associado à sonolência diurna e a outros sintomas relacionados ao sono está entre os achados que justificam investigação para apneia obstrutiva do sono. O diagnóstico não deve ser feito apenas pela presença do ronco ou por uma avaliação clínica isolada: quando existe suspeita, são necessários avaliação médica e exames específicos do sono conforme indicação.

Por que alguém pode dormir muito e continuar cansado?

Porque quantidade de horas e qualidade do sono são coisas diferentes.

Durante um sono adequado, nosso organismo atravessa diferentes estágios ao longo da noite. Quando existem alterações respiratórias capazes de fragmentar esse sono, a pessoa pode sofrer pequenos despertares repetidos, alguns tão rápidos que sequer serão lembrados na manhã seguinte.

Ela pode dizer: “Eu não acordei nenhuma vez”.

Ainda assim, o sono pode ter sido interrompido diversas vezes.

Na apneia obstrutiva do sono, por exemplo, ocorrem episódios recorrentes de obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores durante o sono. O resultado pode envolver fragmentação do sono, alterações na oxigenação e sintomas durante o dia.

Por isso, uma pessoa pode passar muitas horas na cama e ainda sentir que não descansou.

O ronco significa que eu tenho apneia?

Não.

Roncar não é sinônimo de apneia obstrutiva do sono, e nem toda pessoa que ronca terá esse diagnóstico.

Ao mesmo tempo, a presença de ronco importante, principalmente quando acompanhada por pausas percebidas na respiração, engasgos durante o sono, sonolência diurna ou outros sintomas, precisa ser levada a sério.

O diagnóstico da apneia depende de uma investigação adequada e, quando indicada, de testes específicos do sono. Diretrizes da American Academy of Sleep Medicine reforçam que a avaliação diagnóstica deve ser baseada no conjunto clínico e nos métodos apropriados de investigação, e não apenas em questionários ou sintomas isolados.

Portanto, ouvir de alguém que você “para de respirar enquanto dorme” não é um detalhe para observar daqui a alguns meses.

É um motivo para procurar avaliação.

Observe o que acontece enquanto você dorme e quando acorda

Alguns sinais podem ajudar a perceber que o problema não está restrito ao barulho do ronco.

Vale observar se você apresenta ronco frequente e intenso, dorme habitualmente de boca aberta, acorda com boca ou garganta muito secas, desperta cansado mesmo depois de várias horas de sono, apresenta sonolência excessiva durante o dia, tem dificuldade de concentração ou memória, acorda com dor de cabeça ou se outra pessoa já percebeu pausas, engasgos ou mudanças importantes na sua respiração enquanto você dorme.

Nenhum desses sinais, sozinho, confirma um diagnóstico. O conjunto deles, porém, pode indicar que a qualidade respiratória durante o sono precisa ser investigada.

E a boca aberta durante o sono?

Dormir frequentemente com os lábios separados também merece atenção.

Na avaliação fonoaudiológica, não olhamos apenas para o ronco. Observamos como está a respiração habitual, o posicionamento dos lábios e da língua, o funcionamento da musculatura orofacial e a presença de padrões funcionais que podem estar associados ao quadro.

A língua, os lábios, as bochechas, o palato mole e outras estruturas da região orofaríngea participam da dinâmica das vias aéreas superiores. A terapia miofuncional orofacial utiliza exercícios e estratégias voltados à função dessas estruturas e tem sido estudada como uma abordagem complementar em pacientes selecionados com ronco e apneia obstrutiva do sono.

Isso não significa que todo paciente que ronca precise simplesmente “fortalecer a língua”.

O tratamento não pode ser reduzido a uma sequência genérica de exercícios encontrada na internet.

Primeiro precisamos entender a origem e as características daquele quadro.

Onde entra a Fonoaudiologia?

A Fonoaudiologia pode participar do cuidado de determinados pacientes com ronco e distúrbios respiratórios do sono por meio da avaliação e da terapia miofuncional orofacial.

Nesse acompanhamento, podem ser analisados aspectos relacionados à mobilidade, postura e funcionalidade da musculatura orofacial, especialmente língua, lábios e outras estruturas relacionadas às funções orais e à região orofaríngea.

A partir da avaliação, o planejamento terapêutico é individualizado.

Pesquisas sobre terapia miofuncional orofacial mostram resultados favoráveis em alguns pacientes com apneia obstrutiva do sono, inclusive com melhora de medidas relacionadas à gravidade da doença, sonolência e ronco. A literatura também reforça seu papel principalmente como recurso complementar dentro do tratamento, e não como substituição automática das demais abordagens indicadas para cada paciente.

Uma revisão especificamente dedicada ao ronco também encontrou redução do ronco em adultos após terapia miofuncional, tanto em medidas relatadas quanto em avaliações objetivas do sono.

Então a Fonoaudiologia trata apneia?

É importante fazer essa distinção.

A apneia obstrutiva do sono é uma condição que precisa de diagnóstico apropriado e pode exigir diferentes modalidades de tratamento, de acordo com a causa, a gravidade e as características de cada pessoa.

A terapia miofuncional orofacial pode integrar esse cuidado em casos selecionados, muitas vezes de maneira complementar. Ela não substitui automaticamente tratamentos como CPAP, dispositivos intraorais, abordagens cirúrgicas ou outras condutas médicas quando essas são indicadas.

Por isso, o cuidado pode envolver Fonoaudiologia, Medicina do Sono, Otorrinolaringologia, Odontologia e outras áreas, dependendo do caso.

O objetivo não é disputar qual profissional “trata o ronco”. O objetivo é descobrir por que aquela pessoa está roncando e montar a abordagem adequada.

“Mas eu sou jovem. Posso ter problema com ronco?”

Sim.

Embora alguns fatores aumentem o risco de apneia obstrutiva do sono, o ronco e os distúrbios respiratórios do sono não são problemas exclusivos de idosos.

Por isso, idade jovem, aparência física ou a impressão de ser uma pessoa saudável não devem ser usadas isoladamente para descartar um problema respiratório durante o sono.

Se os sintomas estão presentes, eles merecem investigação.

O cansaço durante o dia também importa

Às vezes, o motivo que leva a pessoa a procurar atendimento nem é o ronco.

É o cansaço.

Ela sente que acorda sem energia, tem dificuldade para produzir no trabalho, perde concentração durante uma reunião, precisa dormir no meio da tarde ou sente que depende de café para conseguir funcionar.

A sonolência diurna é um sintoma reconhecido nos distúrbios respiratórios do sono e pode melhorar quando a causa do problema é identificada e adequadamente tratada.

Por isso, se você dorme durante horas e continua exausto todos os dias, não olhe apenas para o número de horas que passou na cama.

Olhe para a qualidade desse sono.

Não comece exercícios para ronco por conta própria

Com a quantidade de vídeos disponíveis na internet, é cada vez mais comum encontrar exercícios de língua, garganta e respiração prometendo acabar com o ronco.

A terapia miofuncional orofacial realmente possui evidências científicas no manejo de pacientes selecionados com ronco e apneia obstrutiva do sono. Isso não significa que qualquer exercício seja adequado para qualquer pessoa.

Diferentes pacientes podem apresentar necessidades completamente diferentes.

Um exercício indicado após avaliação não necessariamente será indicado para outra pessoa que apresenta o mesmo sintoma.

Além disso, tratar apenas o ronco sem investigar uma possível apneia pode atrasar o diagnóstico de um problema que precisa de acompanhamento específico.

Quando procurar ajuda?

Se o ronco é frequente, se você acorda cansado constantemente, se dorme de boca aberta, apresenta sonolência durante o dia ou se alguém já percebeu pausas na sua respiração enquanto dorme, não precisa esperar o quadro piorar para investigar.

O primeiro passo é compreender o que está acontecendo.

A partir daí, pode ser definida a necessidade de avaliação médica, exame do sono e participação de outros profissionais. Quando existe indicação fonoaudiológica, a avaliação das funções orofaciais permite identificar quais aspectos funcionais podem ser trabalhados dentro de um plano terapêutico individualizado.

Roncar pode parecer apenas um barulho durante a noite. Para algumas pessoas, realmente será um ronco simples. Para outras, pode ser o primeiro sinal percebido de que alguma coisa não está funcionando adequadamente durante o sono.

Se todas as manhãs começam com a sensação de que você precisava dormir novamente, talvez o seu corpo esteja tentando mostrar que simplesmente passar mais horas na cama não é a resposta.

Investigue a causa. Cuide da função. Cuide da qualidade do seu sono.

Dra. Alice Valente
Fonoaudióloga
CRFa 1-16130

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